Venture Debt: o que é e como surgiu?

Venture Debt: o que é e como surgiu?

É atribuído ao filósofo Platão a frase: “A necessidade é a mãe da invenção”. Troquemos invenção por inovação e teremos o mesmo princípio da frase original atualizado para os dias de hoje. E é esse princípio que, de certa forma, está por trás do surgimento do Venture Debt: um conceito de financiamento inovador para financiar negócios igualmente inovadores. O curioso é que essa “inovação” já existe a cerca de trinta anos nos EUA e na Europa. E só agora que vemos ela surgir no no Brasil.

A inadequação dos mercados de capitais tradicionais – como já vimos aqui – impulsionaram a criação do Venture Debt. A exuberância dos novos modelos de negócios, principalmente relacionados a tecnologias inovadoras, demandou abordagens de financiamento também inovadoras. Venture Debt é uma abordagem que combina operações estruturadas de crédito, o arcabouço de avaliações de negócios de venture capital e a lógica do investimento seriado (stage finance – conceito que exploramos aqui).

Continue lendo e entenda melhor o Venture Debt, essa modalidade de financiamento que tem se mostrado uma ferramenta versátil e eficiente para a empresas inovadoras.

O que é Venture Debt?

Respondendo essa questão de forma objetiva, podemos dizer que Venture Debt (também conhecido como Venture Lending) é um tipo de crédito adaptado para empresas como startups e PMEs inovadoras, muito adequado a momentos transformacionais da empresa.

Uma das principais diferenças do Venture Debt é que ele é normalmente oferecido por fundos de investimento, ao invés de produtos de crédito tradicionais – oferecidos por bancos. Assim, pode-se utilizar de grande flexibilidade para se estruturar a operação, principalmente em termos de:

  • garantias;
  • fluxo de pagamentos;
  • taxas de juros e mecanismos remuneratórios;
  • prazos;
  • tratamento de situações de potencial inadimplência e repactuação.

Outra diferença básica é sobre como a operação de Venture Debt se remunera em contraste a uma operação de crédito tradicional. Enquanto nessa última temos os juros, no Venture Debt temos, além dos juros (que podem inclusive ser variáveis em regimes especiais), o kicker.

kicker trata-se de uma remuneração da operação de crédito associada ao crescimento da empresa, ou seja, ao seu sucesso no mercado. Normalmente é uma valor de referência – fração do total da operação de crédito – que é corrigido por um índice atrelado ao crescimento da empresa durante certo período de tempo como: variação de valuation; EBITDA; e/ou faturamento.

Sobretudo, o que melhor define o Venture Debt é a criatividade e a inteligência, pois parte sempre do princípio de que a inovação demanda olhares e posturas também inovadoras. Oferece ao empreendedor acesso a capital a um custo compatível com sua capacidade de pagamento e sucesso de sua estratégia, ao mesmo tempo que oferece ao investidor uma operação mais segura e bem estruturada que o investimento direto (equity) com possibilidade de upsides em seu retorno. É, no fim do dia, um instrumento de melhor acomodação e alocação de riscos no mercado de ventures.

Risco e oportunidade: como surge o Venture Debt

Do ponto de vista do mercado, oferecer suporte para o desenvolvimento de empresas inovadoras sempre foi um desafio. Primeiro, porque frequentemente se depara com uma dicotomia: de um lado o perfil de alto risco desses negócios; de outro a oportunidade de obter ganhos elevados. Segundo, porque o modo como essas novas empresas evoluem não costuma se enquadrar em modelos tradicionais de crescimento, de investimento e de avaliação de risco.

Essa realidade começou a se formar nos EUA, entre o fim da década de 70 e o início dos anos 80. É quando empresas como Apple, Genentech e Sun Microsystems começam a se mostrar eficientes em trazer retorno a seus investidores de Venture Capital.

Aos poucos, essa indústria de tecnologia começa a florescer em novos negócios cada vez mais revolucionários. E naturalmente, ela apresenta dinâmicas de crescimento e necessidades de investimento fora dos padrões tradicionais do mercado investidor e de crédito.

Tentou-se, por um tempo, o formato de Leasing como alternativa de financiamento. Porém, bancos e outras instituições financeiras tinham uma visão ainda limitada do potencial e da lógica dessas empresas. E isso levava a uma avaliação equivocada dos riscos de investimento. Foi quando profissionais mais familiarizados com o modo inovador de desenvolvimento criaram o Venture Debt.

O conceito foi se expandindo para bancos e fundos de investimento, que passaram a realizar empréstimos tomando como garantia atributos como:

  • propriedade intelectual, patentes;
  • conteúdos licenciáveis;
  • fluxos de recebimento financeiro em conjunto com garantias tradicionais.

É a partir deste momento que o mercado começa a olhar para a inovação tecnológica com a perspectiva de estrutura de capital que ela demandava. Nesse formato, a recuperação do crédito acontece em diversas situações, mais próprias do mundo de Venture Capital que do mercado de capitais tradicionais, como:

  • no atingimento do break even;
  • no fluxo de caixa positivo;
  • na aquisição da empresa por outra maior;
  • na sua capacidade de pagamento ou mesmo em uma nova captação de recursos em uma das etapas do Stage Finance.

Mercado maduro e em expansão

Nos EUA, a utilização de Venture Debt como opção de financiamento já é uma realidade consolidada. Entre 2010 e 2015, quase 20% das startups norte-americanas captaram recursos por meio do Venture Debt.

Quando utilizado em complemento ao Venture Capital, a proporção de Venture Debt aumenta de acordo com a evolução do Stage Finance, como mostra o gráfico abaixo:

Globalmente, esse modelo de investimento vem crescendo também. Na Índia, por exemplo, um dos grandes players locais investiu, em 2016, US$ 60 milhões em 26 operações. Para o ano seguinte, os planos incluíam aumentar para 50 o total de transações, elevando o valor investido para algo entre US$ 75 milhões e US$ 85 milhões.

Esses números são uma pequena amostra de como o Venture Debt pode ser uma grande oportunidade para quem empreende e para quem investe. É um tipo de crédito estruturado que tem potencial para suportar o desenvolvimento de negócios e que ajuda na preservação da participação acionária do empreendedor.

Sobretudo, é uma opção para quem busca alternativas criativas em um mercado de crédito tão marcado por limitações como é o caso do Brasil.

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